Plataformas de petróleo fixa de concreto e auto-elevatória (Ubarana II, RN). Foto: André Luiz Nicolau.


PLATAFORMAS DE PETRÓLEO
– explosão de Vida em alto-mar


André Luiz Nicolau


                                                                                                                                                                                                                                                                  (HABITAT 70 - MAIO 2002)


Nesta reportagem, o biólogo e mergulhador da Petrobrás André Nicolau mostra a surpreendente
diversidade de organismos marinhos que se instalam nas estruturas artificiais submersas
montadas ao longo da costa brasileira
.


OBS.: TODOS OS ORGANISMOS MARINHOS MOSTRADOS AQUI FORAM FOTOGRAFADOS NAS ESTRUTURAS SUBMERSAS DAS PLATAFORMAS DE PETRÓLEO DO BRASIL.



A vida no mar, como na terra, depende primariamente dos vegetais, representados no ambiente marinho, em sua grande maioria, por algas unicelulares que constituem o chamado fitoplâncton. Esses diminutos organismos autótrofos, utilizando         a energia luminosa do Sol, a molécula de água e a molécula de dióxido de carbono, são capazes de sintetizar compostos orgânicos e ainda liberar oxigênio (processo da fotossíntese) no meio ambiente. Além da água e do dióxido de carbono,            o fitoplâncton tem necessidade de encontrar ao seu redor outras substâncias, importantíssimas para que possa construir sua própria estrutura, crescer e se reproduzir — são os sais nutrientes, como fosfatos e nitratos, além de carbonatos, silicatos e outros. Esses sais são essenciais para a síntese orgânica, deles dependendo a vida no ecossistema marinho.

O mar aberto, que constitui mais de 80% da superfície oceânica e três quartas partes da superfície do planeta, é considerado quase um deserto em termos biológicos. Essa relativa escassez de vida, principalmente quando comparada à abundância das regiões próximas da costa, pode ser explicada pela pequena oferta de elementos inorgânicos que são essenciais à sobrevivência das algas.

Existem nos oceanos três grupos ecológicos básicos, constituídos de organismos animais e vegetais especialmente adaptados: plâncton, que flutua à deriva, ao sabor dos ventos, das ondas e das correntes; bentos, que se desenvolve fixo ou móvel sobre o substrato, sempre em íntima relação de dependência com o fundo; nécton, dotado de movimento próprio, e que nada livremente através do elemento líquido. O plâncton é o elo inicial — e portanto básico — na cadeia alimentar dos ecossistemas marinhos.



     


       Mergulhador alimentando um exemplar de Bodianus rufus

       (Camorim VIII, SE). Foto: André Luiz Nicolau.


















       Corais endêmicos da Bacia de Campos (RJ).
      
       Foto: André Luiz Nicolau.















Tudo começa com a fotossíntese realizada pelo fitoplâncton. Os animais herbívoros do zooplâncton (consumidores primários) alimentam-se desse fitoplâncton, e os carnívoros (consumidores secundários), que também vivem no zooplâncton, predam os herbívoros; por fim, peixes e cetáceos utilizam o plâncton como alimento e, ocasionalmente, são devorados por outros animais marinhos. Todos esses animais e vegetais, depois de mortos, ficam sujeitos à decomposição levada a cabo especialmente pela atividade bacteriana, de maneira que os nutrientes são devolvidos ao ambiente, podendo ser reutilizados pelas algas na elaboração de novos compostos orgânicos. Como se vê, o fitoplâncton constitui a principal base de produção da matéria viva, sendo seu papel fundamental no seio da economia marinha; de sua “produção primária” dependem todos os consumidores, sejam herbívoros, carnívoros, superpredadores ou decompositores.

As regiões costeiras normalmente reúnem condições muito propícias à produção de biomassa a partir do fitoplâncton. Além da baixa profundidade, que deixa passar parte considerável dos raios solares, nessas áreas concentra-se o material nutriente proveniente dos rios, e ainda existem locais onde as correntes de ressurgência afloram, trazendo do fundo para as camadas mais iluminadas uma grande quantidade de nutrientes minerais e orgânicos que até então não podiam ser utilizados pelos vegetais. Deste modo, a fotossíntese se realiza intensamente, e a matéria orgânica gerada alimenta comunidades biológicas complexas, numerosas e fortes. Já nas regiões mais afastadas do litoral, portanto menos influenciadas pelos fatores costeiros,  a profundidade bem maior impõe uma seleção bastante severa, e a pouca oferta de substâncias nutritivas inibe o crescimento tanto dos organismos vegetais como dos herbívoros que “pastam” no fitoplâncton, limitando ainda a quantidade de organismos maiores que o ecossistema é capaz de suportar. Por isso, as regiões de mar aberto são consideradas quase um deserto quando comparadas às regiões costeiras — a produtividade nas regiões costeiras chega a ser seis vezes maior. De fato, a fertilização do fitoplâncton nos diferentes níveis marinhos ocorre pela adição de água doce carregada de substâncias nutritivas e pela mescla de águas provocada pelas correntes ascendentes, sendo este processo mais eficaz em locais pouco profundos.



Nas últimas três décadas, o rápido crescimento industrial do Brasil, com o consequente aumento de demanda por energia, tornou economicamente viável a exploração de petróleo no mar, e logo surgiram inúmeras plataformas marítimas, localizadas, em sua grande maioria, em águas bem afastadas das regiões litorâneas — na bacia de Campos (RJ), as mais próximas estão a cerca de 100 quilômetros da costa. Essas estruturas artificiais, ao serem colocadas em mar aberto, introduziram nesse ambiente um novo elemento que passou a ser de suma importância para a incrementação da vida marinha.





       Muraenidae entre pólipos de coral (Tubastrea aurea) fotografados                       
       na plataforma submersa Pampo I
(RJ). Foto: André Luiz Nicolau.

















       Cardume de olhos-de-cão (Myripristis jacobus)

       com Holacanthus ciliaris.
Foto: André Luiz Nicolau.














A grande superfície rígida e estável proporcionada pelas plataformas começou a ser explorada e colonizada por uma infinidade de organismos marinhos, que antes passavam por essas áreas em diversos estágios de desenvolvimento larvar — compondo o plâncton — sem a menor possibilidade de se estabelecer, devido à uma série de fatores ambientais adversos, como por exemplo, pressão elevada e luminosidade baixa. Assim, com o decorrer do tempo, as plataformas petrolíferas brasileiras instaladas em alto-mar, além de estarem cumprindo o papel a que foram destinadas — extrair petróleo e seus derivados —, passaram a funcionar como suportes artificiais de vida marinha.






       Holacanthus tricolor e Chaetodon striatus alimentando-se

       na estrutura da jaqueta. Foto: Renato Peixoto.
















    



    
       Microspathodon chrysurus.
Foto: Wagner Cavalcanti.


















G
aroupa-diamante (Cephalopholis fulva) defendendo seu território (Ubarana I, RN). Foto: André Luiz Nicolau.



Espalhadas ao longo do nosso litoral, há três tipos de plataformas petrolíferas: fixas, que podem ser de aço ou de concreto, apoiadas ou não no fundo do mar por meio de estacas; semi-submersíveis, que flutuam ancoradas no leito marinho através de cabos de aço com âncoras; e auto-elevatórias, apoiadas no fundo do mar por três ou mais pernas, possuindo um mecanismo de auto-elevação do convés para sua adaptação a diferentes profundidades. As fixas, por terem uma estrutura de sustentação — chamada tecnicamente de jaqueta — que vem desde o leito marinho até a superfície, são normalmente as que suportam maior diversidade de vida marinha.





























Plataforma fixa de aço (Ubarana, RN). Foto: André Luiz Nicolau.


Devido à verticalidade da jaqueta, as espécies animais e vegetais podem se instalar em diversos níveis de profundidade, conforme sua aptidão em explorar o ambiente. Por exemplo, nas partes mais altas das plataformas fixam-se aqueles seres que gostam de viver na zona de variação de maré, ou sejam, crustáceos, moluscos, além de diversas espécies de algas bentônicas. à medida que aumenta a profundidade, ficamos deslumbrados com a enorme diversidade de vida marinha incrustada na jaqueta: espongiários, dos mais diversos matizes e formas; cnidários, representados por hidrozoários (gêneros Millepora e Lytocarpus), anêmonas (gêneros Actinia, Bunodosoma, Condylactis), zoantídeos, alcionários e madreporários, inclusive com espécies de corais tidas como ausentes do litoral brasileiro; vermes anelídeos, representados tanto por poliquetas errantes (Hermodice carunculata) como por tubícolas (Spirobranchus giganteus; Filograna implexa); crustáceos como caranguejos eremitas (gênero Pagurus), caranguejo-aranha (Stenorhynchus seticornis), camarões-estalo (família Alpheidae), camarões-palhaço (Stenopus hispidus), lagostas e cavaquinhas (gênero Palinurus e família Scyllaridae), lagostins (gênero Enoplometopus), caprelídeos e gamarídeos; moluscos bivalves (Ostrea cristata, Spondylus americanus, Pinna cornea, Lyropecten nodusus), gastrópodos (gêneros Conus, Cypraeae e Cymatium) e cefalópodos (Octopus vulgaris); equinodermos de diferentes classes, como estrelas-do-mar, ouriços e lírios; e ainda, várias espécies de briozoários e ascídias.





















Esquerda, caranguejo-aranha (Stenorhynchus seticornis). Foto: André Luiz Nicolau.

Direita,
lagarta-de-fogo (Hermodice carunculata), anelídio poliqueta. Foto: Renato Peixoto.








     


































Esquerda, lagostim red-lobster (Enoplometopus sp.) entre as estruturas submersas (Ubarana I). Foto: André Luiz Nicolau.

Direita, estrutura submersa coberta pelos organismos marinhos incrustantes – explosão de formas e cores. Foto: André Luiz Nicolau.



Além da flora e fauna incrustante, os peixes constituem outro grande espetáculo oferecido pelas instalações marítimas, com inúmeras espécies, características tanto do mar aberto como das regiões costeiras. Cabe ressaltar que a ictiofauna típica das regiões costeiras só habita esta faixa de mar porque as plataformas oferecem abrigo e alimento farto, e ainda possuem locais rasos onde cada espécie de peixe está mais adaptada para viver. Ao redor da jaqueta encontramos barracudas (Sphyraena barracuda); dourados (Coryphaena hippurus); vários representantes da família Scombridae (atuns, albacoras, serras e cavalas); peixes-lua (Mola mola); tubarões de diferentes famílias, inclusive o tubarão-baleia (Rhincodon typus) e o peregrino (Cetorhinus maximus); raias jamantas (Manta birostris); cardumes imensos de enxovas (Pomatomus saltatrix); marlins brancos e azuis (Tetrapturus albidus; Makaira nigricans); espadartes (Xiphias gladius); e também uma grande variedade de peixes da família Carangidae, como xaréus, olhetes e xereletes. Vivendo entre os elementos estruturais da jaqueta podemos observar várias espécies de peixes-cirurgião (Acanthurus chirurgus, A. bahianus, A. coeruleus); serranídeos diversos, como meros (Epinephelus itajara), xernes (Epinephelus niveatus), garoupas (Epinephelus guaza, E. inermis, E. afer, Cephalopholis fulva) e badejos (Mycteroperca bonaci, M. interstitialis, M. rubra); marimbás (Diplodus argenteus); pirangicas (Kyphosus incisor e K. sectatrix); salmonetes (Pseudupeneus maculatus); moréias (Gymnothorax funebris, G. vicinus, G. moringa, Muraena miliaris); jaguriçás (Holocentrus ascensionis); olhos-de-cão (Myripristis jacobus); vários representantes da família Lutjanidae, como caranhas (Lutjanus cyanopterus) e dentões (Lutjanus jocu); salemas (Anisotremus virginicus); sargos de beiço (Anisotremus surinamensis); exemplares da família Scaridae (Scarus coeruleus, Sparisoma viride); marias-da-toca (família Blenniidae); enxadas (Chaetodipterus faber); peixes-pedra (família Scorpaenidae); vários integrantes da família Balistidae (Aluterus scriptus, Cantherhines pullus, C. macrocerus, Balistes vetula, B. capriscus, Canthidermis suflamen).


















Cardume de galos-legítimos (Selene setapinnis) e barracuda (Sphyraena barracuda). Fotos: André Luiz Nicolau.

















Muçum-pintado (Ophichthus ophis) e mero (Epinephelus itajara)
. Fotos: André Luiz Nicolau.































Moreia-verde (Gymnothorax funebris). Essa espécie atinge grande porte. Foto: André Luiz Nicolau.





Da esquerda para a direita, peixe-sapo (Antennarius multiocellatus), mangangá (Scorpaena sp.) e peixe-morcego (Ogcocephalus vespertilio).

Trata-se de peixes bizarros, que vivem no substrato (bentônicos); os dois primeiros possuem peçonha. Fotos: André Luiz Nicolau.






      Fogueira (Myripristis jacobus). Foto: André Luiz Nicolau.



















      Garoupa-diamante (Cephalopholis fulva). Foto: André Luiz Nicolau.




















      Garoupa-gato (Alphestes afer). Foto: André Luiz Nicolau.

















Há um grande número de espécies ditas ornamentais, principalmente as das famílias Labridae (Bodianus pulchellus, B. rufus, Clepticus parrai), Pomacentridae (Chromis multilineatus, C. scotti, Microspathodon chrysurus, Stegastes variabilis), Pomacanthidae (Holacanthus ciliaris, H. tricolor, Pomacanthus paru, P. arcuatus) e Chaetodontidae (Chaetodon striatus,           C. sedentarius, C. aculeatus, C. ocellatus). No leito marinho, ao redor da jaqueta e entre os elementos da estrutura, e também nos oleodutos e gasodutos que interligam as plataformas e escoam a produção para terra, encontramos uma grande variedade de moluscos, crustáceos e peixes.







      Ciliaris (Holacanthus ciliaris). Foto: André Luiz Nicolau.



















      Tricolor (Holacanthus tricolor). Foto: André Luiz Nicolau.

















     
      Peixes-borboleta (Chaetodon ocellatus). Foto: Renato Peixoto.




















     

      Donzela (Stegastes sp.). Foto: André Luiz Nicolau.
















     


      Bodianus vermelho (Bodianus pulchellus).
Foto: André Luiz Nicolau.
















     
     
      Cirurgião azul (Acanthurus coeruleus).
Foto: André Luiz Nicolau.





















     
      Ao lado, peixes-sargento (Abudefduf saxatilis) com suas cores normais.

      Abaixo, o surpreendente padrão de colorido (azul) da mesma espécie, pela primeira vez
      fotografada com suas cores reprodutivas (notar a desova depositada na parede da estrutura).


      Fotos: André Luiz Nicolau.





































Essa grande exuberância e diversidade de organismos, transforma estas plataformas off-shore em verdadeiros santuários de vida marinha, proporcionando uma fonte excepcional para estudos sistemáticos e ecológicos. E muitas espécies que se encontram ameaçadas ainda obtêm refúgio seguro, pois nas áreas de plataformas são proibidos a pesca e o trânsito de embarcações não autorizadas.






































Plataforma semi-submersível (Bacia de Campos, RJ). Foto: André Luiz Nicolau.




BIBLIOGRAFIA


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